• Ambas as situações indicam o valor que a subjetividade e a razão humanas ganharam no período, transformando-se no novo parâmetro de interpretação e explicação do mundo. Há como um desencantamento da realidade, antes, explicada e entendida através de princípios religiosos e místicos, para uma realidade que pode e deve ser desvelada através de princípios racionais. O primeiro exemplo dessa “virada” foi a experiência do cogito cartesiano, o qual se impôs “ ... como a primeira experiência absoluta, anterior à experiência do absoluto“. O homem estabelece-se no mundo destituído de qualquer relação com a realidade superior, posição própria da ideologia burguesa que surge como uma forma de libertação do indivíduo.
• Entre as alterações que essa nova ideologia favoreceu identificam-se aquelas do campo do conhecimento, da esfera política, econômica e social. No que diz respeito ao conhecimento, há a demarcação do espaço do sujeito separando-o do espaço do objeto pois entendiam que essa dicotomia era necessária para que pudesse haver neutralidade no conhecimento produzido. Isto caracterizava-se como a possibilidade de se elaborar um saber objetivo e isento. A desconfiança no saber intelectual já havia sido demonstrada por Descartes, ao indicar que todos os dados deveriam ser submetidos a um processo de análise. Com isto Descartes acenava para a dificuldade de chegar a um conhecimento onde não houvesse a ingerência da subjetividade. Esta é mais uma constatação do poder que o homem moderno conquistou, da sua autonomia, da sua liberdade e do seu poder de decisão.
Retrato de René Descartes,
por Frans Hals
Ética, cidadania e responsabilidade socioambiental
6 de 11